Wednesday, March 23, 2005

Inexistente infalibilidade


Tudo me deprime, a vida principalmente. Não estou triste ou alegre. Não sinto nada porque nada sou, ou, se preferir, posso até ser tudo.
Ando algures pela cidade sem planear qualquer itinerário; entretanto, sento-me à beira-mar. Na areia enterro os pés o mais que consigo como se quisesse chegar ao centro da terra, ao fundo de mim mesma.
Pergunto-me o que é o mundo; uma poeira no desconhecido ou, pelo contrário, um local único cuja a vida o distingue de todos os outros?
Aborreço-me a pensar. Prefiro olhar o mar e absorver a luz ainda existente deste fim de tarde enquanto tento, em vão, a resolução definitiva destes pensamentos que não me induzem a qualquer lógica ou razão. Dizem-me que não percebem os meus medos, receios e até as dúvidas! Fingidos; também eles as têm. Somos todos assim com a clara excepção dos poetas! Ah, esses sim! Podem realmente ser tudo quando já nada têm!
Sorriu. E nós, o que temos? Certezas? – certamente não -. Mas como posso então assegurar a inexistência da infalibilidade se, o que o eu afirmo é, senão, minha exclusiva certeza?
Encho a mão com a areia morna deste fim de tarde.
Mas porque não me queimas tu, desprezada areia? Vá lá! Talvez seja esse o ingrediente necessário para o fim da pólvora. Qual massa cinzenta! Não me iludo. Existe simplesmente matéria corrosiva nesta caixa neurótica; quanto mais penso, mais morro. Tarde demais, o sol desvaneceu por entre a linha de água.
E agora, estrelas? Onde vos escondeis? Lindas meninas da noite…vinde para, pelo menos, me erguerdes a cabeça e me guiardes ao que procuro. O que é?; não sei. Para quê procurar então?...bem, minha única certeza (da certeza que não tenho) indica-me para uma morte sem medo. Procurarei, portanto, um motivo para a existência?

Thursday, March 17, 2005

A correr, assim o mundo se vê

Certamente todos nós reflectimos sobre o quão depressa a vida passa, sobre o tempo perdido e apressado, e até sobre a evolução repentina das mais pequenas situações que nos preenchem o quotidiano. Pois bem, é graças a essa reflexão que nos apercebemos que, realmente, a nossa passagem por terra, é tão pequena e insignificante como a de uma simples formiga que percorre o chão.
No entanto, apesar de essas mesmas formigas serem ainda mais minúsculas do que nós perante este universo infinito, elas cooperam entre si, reinando a paz e o sentido de entre ajuda sobre elas...como será então possível, que até estas pequenas criaturas, sem inteligência e sem qualquer evolução, consigam assegurar essa paz e entre ajuda, e nós, seres inteligentes e em progresso constante, não o consigamos?
A missão do formigueiro, é, sem dúvida, trabalhar para sobreviver. E nós? Qual será a nossa missão?
Será que nos preocupamos em sabê-la, descobri-la verdadeiramente?
Como, actualmente, conseguimos bens de primeira necessidade sem grande esforço, o ser humano necessita sempre de mais e mais. Essa busca constante de luxúria, poder e futilidade, cega a visão de paz e cooperação de que tantos nós precisamos!
Digamos que uma pessoa que viva apenas para seu próprio consumo e que vai ignorando as bases fundamentais duma consciência realmente tranquila, termina a sua existência com o remorso e a sensação de inutilidade de uma vida desperdiçada em pensamentos e actos egoístas… Certamente que, o ser humano enquanto ser emotivo, não se apazigua com esse sentimento novo que, no fundo, já existente, aflui agora no seu máximo.
É então que se recorre a todas as possíveis lembranças, momentos, decisões cuja consciência, avivada, os tenta distorcer e os imagina como poderiam ter sido tão diferentes se o mundo e a vida não corressem tão depressa…

Tuesday, March 08, 2005

O peso do pensar no pensameno

Mal durmo, pouco falo; talvez pense demais.
Para quê pensar se só a irresolução de todas as dúvidas é permanente? Procuro, em vão, uma fórmula para a vida…
Decidi não mais pensar! Quem sabe até, o ego daqueles que não pensam, seja mais feliz, mais realizado e sem quaisquer dúvidas daquilo que, no fundo, são ilusórias certezas. Decerto, uma vez que não há a ginástica da reflexão, não poderá existir uma íntegra delineação do seu rumo, do seu futuro.
Assumido tal papel, viverei, nesse caso, por viver.
Oh pensamento maldito! Afasta-te de vez para que eu consiga a plácida função sem ter de carregar com o peso de pensar naquilo que posso ou devo, não posso ou não devo cogitar.
E então eu ando e eu vou e passeio e rio e como e caminho e eu olho e eu vejo e surpreendo e eu choro e eu paro e eu penso e eu penso e penso e penso…
Barafunda, confusão… pensamento, onde está a razão?

O dia a dia do que é sempre igual...

Primo o botão. Encosto a cabeça. Relembro…
“O que queres ser no futuro?” – haviam-me perguntado dias atrás.
Quero ser alguém, respondi.
Sim, reflicto agora, um alguém que não se canse da aventura de viver; aceite desafios contínuos (até os mais íngremes pois só desses resultarão os maiores júbilos), seja batalhador nos seus sonhos e convicções abstraindo-se então do anonimato; alguém diferente do padrão, da moda, do aceitar da comodidade que a monotonia da vida nos reserva; alguém capaz de mudar teorias ou pensamentos sem qualquer medo ou receio do mundo, independente de tabus ou até inibições; alguém destemido da verdade assim como lutador pela justiça, denegando sujeição a burocracias hipócritas! Alguém que, para além de tudo isto, se faça corajoso e realista a ponto de coabitar com a evidente realidade oposta.
“Mas não pensas nalguma profissão possível? Afinal é disso que um dia sobreviveremos!” – insistiram.
Não, ainda é cedo para decidir… - menti descaradamente.
Como é possível acreditarem? Não notam, no meu olhar perdido, um tumulto contido por algo tão visível a todos? “Sobreviveremos”, é o verbo, a finalidade. A vida é, nem mais nem menos, uma utópica sobrevivência à morte. Apenas existimos, não para viver, mas sim para subsistir num mundo tão módico quando comparado com a dimensão do desconhecido…Jamais! Recuso-me a tal condição. Optar por um ofício seria, fosse ele qual fosse, uma mera integração, arriscaria até, uma fixação de mim mesma nesse mundo. Seria então como que uma delineação da minha espontaneidade perante a essência da liberdade, - não percebem?! - da vida!
Porém, nada do que eu lhes disser irá inovar rotinas; os hábitos e preconceitos permanecerão naqueles que, contentando-se com o seu próprio ego, são os máximos principiadores deste préstito sem senso.
É neste local inexistente e de tempo indeterminado, ao qual chamam pensamento, mas onde, e sobretudo, eu existo, que absorvo, ao acaso, imagens de uma vertiginosa destruição e penoso sofrimento. Desvio o olhar; não adianta, a catástrofe é proclamada em toda a parte do mundo, que, como já o disse, é pequeno. Talvez por essa razão ponderei até que ponto esta calamidade poderia atingir a humanidade. Aumentei o volume. Os primeiros momentos da reportagem não me afectaram, visto as imagens serem repetidas e de, um certo modo, já as ter interiorizado como uma situação irremediável. No entanto, e quando estava prestes a afastar a minha atenção do ecrã, eis que surgem crianças e jovens, dispostos, também eles, a transmitirem palavras e expressões para a gente que os observa.
Foram as suas feridas na face e a pele bastante morena e suja que me cativaram novamente. Olhos de um menino que, num dos quaisquer dias anteriores àquele, poderiam brilhar com tanto brilho como o das estrelas, estavam agora desgarrados de qualquer sentimento ou até vida. Ouviu-se então a questão da jornalista que, no meio de tanto desastre e penúria, era como que um eclodir de uma esperança: “Depois de tudo isto, qual é o teu maior desejo para o futuro?”
“- Eu gostava de ser professor”, respondeu já sem qualquer entusiasmo na voz juntamente com uma expressão apagada, quase neutralizada, como se tal desejo fosse o único meio para a sua sobrevivência.
Fecho os olhos; uma lágrima percorre-me a face antes que eu a pudesse conter. Ele queria apenas sobreviver, quanto a mim, achava-me no direito de poder atingir muito mais do que isso.