Inexistente infalibilidade

Tudo me deprime, a vida principalmente. Não estou triste ou alegre. Não sinto nada porque nada sou, ou, se preferir, posso até ser tudo.
Ando algures pela cidade sem planear qualquer itinerário; entretanto, sento-me à beira-mar. Na areia enterro os pés o mais que consigo como se quisesse chegar ao centro da terra, ao fundo de mim mesma.
Pergunto-me o que é o mundo; uma poeira no desconhecido ou, pelo contrário, um local único cuja a vida o distingue de todos os outros?
Aborreço-me a pensar. Prefiro olhar o mar e absorver a luz ainda existente deste fim de tarde enquanto tento, em vão, a resolução definitiva destes pensamentos que não me induzem a qualquer lógica ou razão. Dizem-me que não percebem os meus medos, receios e até as dúvidas! Fingidos; também eles as têm. Somos todos assim com a clara excepção dos poetas! Ah, esses sim! Podem realmente ser tudo quando já nada têm!
Sorriu. E nós, o que temos? Certezas? – certamente não -. Mas como posso então assegurar a inexistência da infalibilidade se, o que o eu afirmo é, senão, minha exclusiva certeza?
Encho a mão com a areia morna deste fim de tarde.
Mas porque não me queimas tu, desprezada areia? Vá lá! Talvez seja esse o ingrediente necessário para o fim da pólvora. Qual massa cinzenta! Não me iludo. Existe simplesmente matéria corrosiva nesta caixa neurótica; quanto mais penso, mais morro. Tarde demais, o sol desvaneceu por entre a linha de água.
E agora, estrelas? Onde vos escondeis? Lindas meninas da noite…vinde para, pelo menos, me erguerdes a cabeça e me guiardes ao que procuro. O que é?; não sei. Para quê procurar então?...bem, minha única certeza (da certeza que não tenho) indica-me para uma morte sem medo. Procurarei, portanto, um motivo para a existência?

