Morte Perfeita
Hoje não vou escrever para ninguém, vou escrever para mim. |
Hoje não vou escrever para ninguém, vou escrever para mim. |
Caio ao viver; talvez porque a vida é um precipício. Não acho a cancela para me segurar e apreciar a paisagem. |
Perco-me no conceito que atribui à vida; não à minha, à que tenho vivido; à que eu vejo passar-me ao lado, à que me faz morrer mais depressa. Perco-me nesse conceito que me é lesivo; paralisa-me, perturba-me. Noção da minha exiguidade, conceito do inexplicável…porque me atormentais vós? Matais-me. Assim sendo, vou eu mesma me matando. Afinal, quem outro culpado senão meu próprio ego para a origem de tal consciência? Não, enquanto ser humano não existo sem a presença dela; não a é possível afastar do meu eu, a culpa não é de todo minha, mas do ser humano em si…portanto, de Deus? Não o consigo alterar; alguma vez tentei? Estou farta disso! Ora medito, ora penso, ora enfureço, ora durmo…nada me leva a abrupta agonia de a possuir. Ai consciência de vida!...porquê me perco em ti se nem a certeza de seres a certa eu tenho? O que é o certo?; o que vejo ou o que sinto? O ouço ou o que penso? O que temo ou o que amo? Eu temo? Eu amo? Diz-me então consciência…como te apago? Como te desvaneces? Vai-te, deixa-me, eras mais uma! Também a tua oposta se foi, mas era tão mais fácil do que tu! Tu atrapalhas-me, fazes-me cair e questionar se vale a pena levantar. Já a outra, tua oponente, essa sim! Não me confundia ou transtornava, a bela inconsciência! Erro, minto-me. Foi das dúvidas inconscientes que te incrementei, das quais tu surgis-te. Naturalmente num processo gradual cujo final, se não está próximo, já foi ultrapassado. Estagnei na consciência, na vida e no sorrir; no falar e no pensar, no andar e no desejo de querer mais. Vou-me, sem escolha, estagnando neste conceito de vida consciente. |