Friday, April 29, 2005

Morte Perfeita

Hoje não vou escrever para ninguém, vou escrever para mim.
Como tenho passado?
O habitual; fuma-se, dorme-se, pensa-se, chora-se, o habitual.
Baralho-me. Tudo à minha volta tem de ter uma razão, um sentido…quem me impingiu tal? Eu.
Não me apetece escrever nada, quero escrever tudo. Em que ficamos?
Ò senhora explicação, senhor Viktor, que tem argumentos para tudo, compreenda-me este marasmo de vida, da minha vida! Aproveito o tempo para dormir, assim vou experimentando a morte.
Na morte sonha-se? Estupidez, não. O subconsciente, que origina o sonho, está apagado. Mas então a nossa alma? Não é o mesmo?
Tenho sono, estou quase a dormir…afinal, a própria vida é um sonho cujos pequenos momentos de morte (por ironia, indispensáveis) nos obrigam a adormecer e a esperar que o subconsciente não se apague. Caso se apague no sono será tão mais fácil, não estaremos conscientes; a morte perfeita!

Cansaço da Existência

Caio ao viver; talvez porque a vida é um precipício. Não acho a cancela para me segurar e apreciar a paisagem.
Se não me magoo?
Sim, canso-me. É suspeito de não doer? Haverá outro golpe mais profundo e lento que o cansaço da existência? Conjugação mortífera o intenso e o vagaroso.
O que é o cansaço? É apenas e só o que sinto.
Imagino que haja uma resolução para tal estado apático…dormir.
Quando durmo, fecho os olhos, pouso a cabeça; não tenho sequer de magicar sobre o dia de amanhã, durmo agora…
E eu não sinto, não vejo, não penso, não sofro, não raciocino…eu não sou eu, assim vou morrendo, assim não vou existindo.


Conceito de uma vida consciente

Perco-me no conceito que atribui à vida; não à minha, à que tenho vivido; à que eu vejo passar-me ao lado, à que me faz morrer mais depressa. Perco-me nesse conceito que me é lesivo; paralisa-me, perturba-me.
Noção da minha exiguidade, conceito do inexplicável…porque me atormentais vós? Matais-me. Assim sendo, vou eu mesma me matando. Afinal, quem outro culpado senão meu próprio ego para a origem de tal consciência?
Não, enquanto ser humano não existo sem a presença dela; não a é possível afastar do meu eu, a culpa não é de todo minha, mas do ser humano em si…portanto, de Deus?
Não o consigo alterar; alguma vez tentei? Estou farta disso! Ora medito, ora penso, ora enfureço, ora durmo…nada me leva a abrupta agonia de a possuir. Ai consciência de vida!...porquê me perco em ti se nem a certeza de seres a certa eu tenho? O que é o certo?; o que vejo ou o que sinto? O ouço ou o que penso? O que temo ou o que amo? Eu temo? Eu amo?
Diz-me então consciência…como te apago? Como te desvaneces? Vai-te, deixa-me, eras mais uma! Também a tua oposta se foi, mas era tão mais fácil do que tu! Tu atrapalhas-me, fazes-me cair e questionar se vale a pena levantar. Já a outra, tua oponente, essa sim! Não me confundia ou transtornava, a bela inconsciência!
Erro, minto-me. Foi das dúvidas inconscientes que te incrementei, das quais tu surgis-te. Naturalmente num processo gradual cujo final, se não está próximo, já foi ultrapassado.
Estagnei na consciência, na vida e no sorrir; no falar e no pensar, no andar e no desejo de querer mais. Vou-me, sem escolha, estagnando neste conceito de vida consciente.