Saturday, December 06, 2008

Quero sonhar...

O dia está a nascer. Soluço baixinho com a face molhada. Na imensidão da cidade ecoa a tua voz. Nesta hora, neste princípio de amanhecer, vejo o teu rosto no vidro da janela, ouço-te no canto dos pássaros que despertam, cheiro-te nesta solidão. O sentimento de perda perpetua-se no meu peito, queima, fere, rasga, mata-me mas continuo a viver.
Estou despida, com frio, com medo, com saudade. Dormir não faz sentido, viver não faz sentido. Sorrir não passa de uma trémula lembrança de infância, sonhar é uma ínfima partícula subsistente no meu ser. Porque não desistir? Porque não juntar-me aos pássaros que voam lá fora? O que vale esta existência?
Preciso de ti. Preciso tanto de ti. Sentir-te aqui, embalares-me até adormecer.
Preciso de sair de mim. Fugir de mim. Deixar de me esconder atrás desta pele frágil de menina com olhos cansados e tristes. Entulhar toda a dor e queimá-la, desfazer todas as suas réstias mais persistentes, triturá-la com os meus dentes que um dia se julgaram felizes por sorrirem a teu lado.
O céu clareou. Pesam-me as pálpebras inchadas, as lágrimas já secaram na minha face.
O cansaço puxa-me para a cama. Quero dormir. Quero viver. Quero sonhar...